O Gestual – Grupo de Estudos Socio-Territoriais, Urbanos e de Ação Local – nasceu informalmente em Outubro de 2007, agregando um pequeno grupo de investigadores seniores e juniores, docentes, estudantes e profissionais em torno de um projeto coletivo de investigação, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e integrado no CIAUD (Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design) da então FAUTL (Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa atual Universidade de Lisboa). Este projeto abordou, numa perspetiva multidisciplinar, a reconversão dos bairros ditos de génese ilegal em Portugal, especificamente os da Área Metropolitana de Lisboa, e teceu um olhar comparado com outras situações similares, no Rio de Janeiro e em São Paulo, em Istambul e em Maputo. Na sequência deste projeto, o Gestual foi sendo palco de outros projetos coletivos de investigação e de ação, bem como de projetos individuais de investigação (ao nível do mestrado, doutoramento e pós-doutoramento); e acolheu também a coordenação de um mestrado europeu (Master Erasmus Mundus EURMed: Estudos Urbanos em Regiões Mediterrânicas).

O Gestual pretendeu agregar às sinergias potenciadas por este projeto charneira, outros projetos anteriores, em curso ou delineados, e consolidar uma linha de investigação que associa à matriz do pensamento crítico de Henri Lefebvre as premissas de um urbanismo de intervenção. Neste caminhar, o Gestual foi-se construindo, cativando novos membros com idênticas inquietudes, urbanistas, arquitetos, designers e cientistas sociais. Em Junho de 2013, o Gestual foi oficialmente reconhecido como um Grupo de Investigação da Faculdade de Arquitetura.

Território de pesquisa e ação
As margens do urbano e as áreas habitacionais evidenciam-se como o terreno e as temáticas privilegiadas de pesquisa e ação do Gestual. Os subúrbios, as periferias, os territórios ditos informais, ilegais ou irregulares, que classificamos de semi-urbanizados ou autoproduzidos, bem como os de promoção pública, são os mais estudados pelo grupo. Não se exclui, todavia, o olhar sobre outros territórios em transformação, como núcleos históricos ou áreas rurais, sempre que lidos no quadro da urbanização à escala global e numa perspetiva crítica e diacrónica. São objeto de particular atenção, as dinâmicas socio-espaciais dos territórios habitacionais, quer ao nível da escala da cidade (ou do aglomerado), quer do bairro, do espaço público, da habitação ou do mobiliário urbano. Os lugares da “lusotopia” são o terreno privilegiado de estudo e ação, mas estes cruzam-se com os horizontes mais largos de um mundo cada vez mais globalizado ao nível da economia dominante, bem como das dinâmicas socio-espaciais, resultantes ou resistentes.

Linhas norteadoras
A abordagem é em todos os casos socio-espacial. O espaço é entendido enquanto produto do social na linha de Henri Lefebvre (1974) retrabalhada por David Harvey (2001). O Gestual pretende compreender as transformações espaciais operadas, em curso e previstas, resultantes das estruturas e condicionantes societais bem como das ações de uma multiplicidade de atores, desde poderes públicos e interesses privados até à sociedade civil, incluindo organizações locais e moradores. A identificação das tendências de transformação espacial, dos modelos e paradigmas urbanísticos e habitacionais subjacentes, bem como das motivações, racionalidades e práticas que os configuram, têm, como objetivo último, a reflexão sobre como se faz, o que fazer, parafraseando José Forjaz (2005) para o caso concreto de Moçambique, e como fazer.

Privilegia-se a investigação aplicada e a investigação-ação ou a ação-investigação. Visa-se conhecer para transformar, mas também, transformar ou intervir para conhecer. A ação é sempre objeto de reflexão e monitorização participada. Subjacente está a noção de reflexividade, um processo iterativo entre a investigação e a ação, entre a teoria e o empírico ou a prática, defendida com especial vigor no urbanismo por autores como François Ascher e Nuno Portas. Esta noção articula-se com duas outras: a de produção social de conhecimento, como tem sido reclamada por Yves Cabannes (2013), e a de restituição dos resultados da investigação, não apenas à comunidade técnico-científica, mas também às comunidades dos territórios estudados, dinamizando situações de interação, como defendido por Isabel Raposo (1999 e 2007). A circulação da informação e a animação de debates públicos junto da comunidade inserem-se, ao mesmo tempo, numa postura epistemológica, permitindo verificar os resultados da investigação e obter novos dados, mas também deontológica e de responsabilidade social, devolvendo-se o conhecimento produzido, contribuindo para o reforço da capacidade de reflexão local e inserindo a pesquisa na dinâmica local e no processo de tomada de decisões.

A interação estreita entre os investigadores e os atores e agentes do território, na linha de uma observação participante e do envolvimento prático, norteia o trabalho do grupo. Ao nível da ação e do projeto (urbanístico, habitacional, de design ou sociocultural), o objetivo é a qualificação do território, mas também a capacitação, o empoderamento e a transformação emancipadora local.

Estes conceitos estão associados a três direitos fundamentais: o direito à habitação, o direito ao lugar e o direito à cidade. Estes direitos são entendidos no sentido emancipador e transformador que Henri Lefebvre atribuiu ao direito à cidade (1974), repensado mais recentemente por David Harvey (2008, 2012). Procura-se a clarificação destas noções e a operacionalização destes direitos ao nível da investigação e da ação. Em síntese, o Gestual pretende identificar as tendências que se perfilam, mas também as práticas, as políticas e os paradigmas de intervenção urbanística que têm conduzido à produção de uma cidade com mais qualidade de vida para todos, mais justa e com maior justiça espacial, retomando Edward Soja (2010) entre outros.

O Gestual dá uma atenção especial a três temas principais: (i) a um urbanismo de proximidade e alternativo ao sistema dominante, que privilegie a coesão socio-territorial, o reforço das identidades e solidariedades locais e a (re)qualificação da cidade existente; (ii) a um urbanismo partilhado que se articule com as práticas comunitárias de autoprodução do seu habitat e com os movimentos dos cidadãos na defesa dos seus direitos à habitação, ao lugar e à cidade; e (iii) a um urbanismo emancipador que seja construtor de uma cidade mais inclusiva, mas também indutor de uma sociedade mais democrática e igualitária (Raposo 2013). Privilegia-se, em suma, a dimensão política do urbanismo lida e tecida nos modelos e nas infinitas práticas sociais e espaciais dos seus múltiplos atores e agentes.

Quem somos e o que fazemos
O Gestual associa um conjunto de investigadores, professores e técnicos - urbanistas, arquitetos, designers, geógrafos, sociólogos e antropólogos -, que se reveem nestes conceitos, princípios e direitos. Institucionalmente, os membros fundadores do Gestual fazem parte do CIAUD. Podem integrar o Gestual, de forma permanente ou pontual, estagiários e estudantes da instituição de acolhimento, bem como outros membros não ligados à FAUL nem ao CIAUD, caso de antigos alunos ou de profissionais e investigadores de outras disciplinas ou instituições.

O Gestual aposta numa dinâmica interna, horizontal e reflexiva, valorizadora do seu património e potenciadora das iniciativas individuais e coletivas e das sinergias do grupo em torno da investigação, da investigação-ação e da intervenção local, do debate científico, técnico e político, e também da formação. Os seus membros desenvolvem projetos de investigação e ação, coletivos e individuais (de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento). A dimensão da formação faz parte integrante do Gestual desde a sua origem, com a oferta de disciplinas optativas na FAUL, ao nível do segundo e terceiro nível universitário (mestrado e doutoramento), bem como de workshops, com objetivos e programas relativos aos temas e aos territórios abordados pelo grupo.

No quadro da sua produção científica, profissional e didática, o Gestual integra: a organização e coorganização de eventos vários, workshops e debates internos ou abertos, conferências e seminários nacionais e internacionais e outros eventos científicos e culturais; a elaboração de projetos de intervenção (urbanísticos, habitacionais, de design de produto e de comunicação e socioculturais); a elaboração de exposições e pequenas reportagens para fomentar debates e divulgar resultados; e a disseminação escrita de resultados científicos e práticos bem como de textos didáticos através da sua publicação em revistas, livros e brochuras, nacionais e internacionais, científicos e de divulgação. O Gestual está também envolvido na articulação em rede com entidades com abordagem similar ou complementar.